sábado, 29 de abril de 2017

Poema do Menino Jesus - Fernando Pessoa

Poema do Menino Jesus Num meio-dia de fim de Primavera Tive um sonho como uma fotografia. Vi Jesus Cristo descer à terra. Veio pela encosta de um monte Tornado outra vez menino, A correr e a rolar-se pela erva E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se de longe. Tinha fugido do céu. Era nosso demais para fingir De segunda pessoa da Trindade. No céu tudo era falso, tudo em desacordo Com flores e árvores e pedras. No céu tinha que estar sempre sério E de vez em quando de se tornar outra vez homem E subir para a cruz, e estar sempre a morrer Com uma coroa toda à roda de espinhos E os pés espetados por um prego com cabeça, E até com um trapo à roda da cintura Como os pretos nas ilustrações. Nem sequer o deixavam ter pai e mãe Como as outras crianças. O seu pai era duas pessoas - Um velho chamado José, que era carpinteiro, E que não era pai dele; E o outro pai era uma pomba estúpida, A única pomba feia do mundo Porque nem era do mundo nem era pomba. E a sua mãe não tinha amado antes de o ter. Não era mulher: era uma mala Em que ele tinha vindo do céu. E queriam que ele, que só nascera da mãe, E que nunca tivera pai para amar com respeito, Pregasse a bondade e a justiça! Um dia que Deus estava a dormir E o Espírito Santo andava a voar, Ele foi à caixa dos milagres e roubou três. Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido. Com o segundo criou-se eternamente humano e menino. Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz E deixou-o pregado na cruz que há no céu E serve de modelo às outras. Depois fugiu para o Sol E desceu no primeiro raio que apanhou. Hoje vive na minha aldeia comigo. É uma criança bonita de riso e natural. Limpa o nariz ao braço direito, Chapinha nas poças de água, Colhe as flores e gosta delas e esquece-as. Atira pedras aos burros, Rouba a fruta dos pomares E foge a chorar e a gritar dos cães. E, porque sabe que elas não gostam E que toda a gente acha graça, Corre atrás das raparigas Que vão em ranchos pelas estradas Com as bilhas às cabeças E levanta-lhes as saias. A mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas Quando a gente as tem na mão E olha devagar para elas. Diz-me muito mal de Deus. Diz que ele é um velho estúpido e doente, Sempre a escarrar para o chão E a dizer indecências. A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia. E o Espírito Santo coça-se com o bico E empoleira-se nas cadeiras e suja-as. Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica. Diz-me que Deus não percebe nada Das coisas que criou - “Se é que ele as criou, do que duvido.” - “Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória, Mas os seres não cantam nada. Se cantassem seriam cantores. Os seres existem e mais nada, E por isso se chamam seres.” E depois, cansado de dizer mal de Deus, O Menino Jesus adormece nos meus braços E eu levo-o ao colo para casa. … … … … … … … … … … … … … … … … … … … Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. Ele é o humano que é natural. Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda a certeza Que ele é o Menino Jesus verdadeiro. E a criança tão humana que é divina É esta minha quotidiana vida de poeta, E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre. E que o meu mínimo olhar Me enche de sensação, E o mais pequeno som, seja do que for, Parece falar comigo. A Criança Nova que habita onde vivo Dá-me uma mão a mim E outra a tudo que existe E assim vamos os três pelo caminho que houver, Saltando e cantando e rindo E gozando o nosso segredo comum Que é saber por toda a parte Que não há mistério no mundo E que tudo vale a pena. A Criança Eterna acompanha-me sempre. A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado. O meu ouvido atento alegremente a todos os sons São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas. Damo-nos tão bem um com o outro Na companhia de tudo Que nunca pensamos um no outro, Mas vivemos juntos e dois Com um acordo íntimo Como a mão direita e a esquerda. E dos comércios, e dos navios Que ficam fumo no ar dos altos mares. Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade Que uma flor tem ao florescer E que anda com a luz do Sol A variar os montes e os vales E a fazer doer aos olhos dos muros caiados. Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas No degrau da porta de casa, Graves como convém a um deus e a um poeta, E como se cada pedra Fosse todo o universo E fosse por isso um grande perigo para ela Deixá-la cair no chão. Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens E ele sorri porque tudo é incrível. Ri dos reis e dos que não são reis, E tem pena de ouvir falar das guerras, Depois ele adormece e eu deito-o. Levo-o ao colo para dentro de casa E deito-o, despindo-o lentamente E como seguindo um ritual muito limpo E todo materno até ele estar nu. … … … … … … … … … … … … … … … … … … … Ele dorme dentro da minha alma E às vezes acorda de noite E brinca com os meus sonhos. Vira uns de pernas para o ar, Põe uns em cima dos outros E bate palmas sozinho Sorrindo para o meu sono. Quando eu morrer, filhinho, Seja eu a criança, o mais pequeno. Pega-me tu ao colo E leva-me para dentro da tua casa. Despe o meu ser cansado e humano E deita-me na tua cama. E conta-me histórias, caso eu acorde, Para eu tornar a adormecer. E dá-me sonhos teus para eu brincar Até que nasça qualquer dia Que tu sabes qual é. … … … … … … … … … … … … … … … … … … … Esta é a história do meu Menino Jesus. Por que razão que se perceba Não há-de ser ela mais verdadeira Que tudo quanto os filósofos pensam E tudo quanto as religiões ensinam ?

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A CABANA, DEUS-MÃE, E A GERAÇÃO MIMIMI

A CABANA, DEUS-MÃE, E A GERAÇÃO MIMIMI
[Dedico esse texto à minha Mãe ( Lucilla Gracindo ) que me faz experimentar Deus de formas intensas e inesquecíveis.]
Até hoje eu me lembro do dia em que num Acampamento onde moro e trabalho, fiz uma oração pública e chamei Deus de Mãe. Por conta da presente falta de unanimidade em relação ao uso desse termo, minha falta de sabedoria levou pra casa alguns problemas. Se você estava lá e ficou com muita raiva de mim, eu quero te pedir duas coisas: primeiro, saiba que te deixar com raiva não foi minha intenção, e segundo, leia esse texto até o final porque talvez ele seja esclarecedor.
Nos últimos dias tenho ouvido muitas críticas a respeito do filme “A Cabana” e por isso decidi unir um texto que escrevi no início do ano à roupagem atual que o filme nos concede.
A maioria dessas críticas, como as de Mark Driscoll, por exemplo, se refere a um possível ensino distorcido daquilo que é a Trindade (aquele papo de Deus ser três e um ao mesmo tempo, lembra?). Apesar de sabermos que a preocupação do filme não é tecer uma nova ideia sobre esse assunto, mas apenas compartilhar a perspectiva de um Deus que é sensível ao sofrimento humano, algumas pessoas têm se posicionado contra a ideia de um Deus que se revela como uma mãe.
Para conversarmos sobre isso, precisamos entender a Bíblia e a tradição Cristã como acontecimentos históricos que surgiram dentro de determinados contextos sócio-culturais e acontecimentos que sofreram tentativas de “apropriações” por grupos de pessoas que mais conseguiram impor suas vozes diante da maioria. E que fique claro, nesse jogo, injustamente, não é sempre a maioria que ganha. Você se lembra do que disse George Orwell: “A história é escrita pelos vencedores?” Pois é, mas e a versão dos perdedores? É justamente a falta dela que faz do relato histórico um relato incompleto.
Se a tradição cristã, que é formada de interpretações (vozes hermenêuticas) acerca da Bíblia, também participa desse cenário aonde se disputa quem fala mais alto, podemos concluir que as vozes pretas e femininas (assim como várias outras) não foram levadas em conta na formação coletiva e consensual dessa tradição, afinal, se hoje a desigualdade “vocal” permanece, que dirá a 2000 anos atrás?
Visto isso, caminhamos conscientes de que as interpretações carregam consigo pressupostos que são frutos de nossas identidades, afinal, como diz Gottfried Brakemeier, “nossa mente, nossos olhos e nossos ouvidos jamais são neutros. Estão precondicionados por um determinado mundo experimental, que lhes determina a percepção”. E é por causa disso que existe um reflexo gigante dessas “vozes dominantes na história” que elas mesmas nos contaram.
Pergunta: Você nunca estranhou o fato de um ser humano concebido no seio do Oriente Médio ser pintado de cabelos loiros e olhos azuis?! Um Jesus europeu foi apenas uma projeção identitária de historiadores e pintores europeus, claro, muito mais privilegiados do que um artista africano.
É fato que a influência de toda essa realidade de Interpretação nos alcança até hoje, e se manifesta, por exemplo, quando vemos alguém ofendido, em nome de um suposto conjunto de dogmas distantes da realidade, ao ouvir Deus sendo chamado de Mãe.
“Mas calma aí, Guilherme, Deus é Pai e quem o chamou assim foi o próprio Jesus!”
Deixo claro que pra mim faz sentido pensar que a ausência do termo ‘mãe’ nas palavras do Mestre foi a consequência de uma escolha sábia, e sabedora de que num contexto machista, androcêntrico, patriarcal e intolerante ao Feminino (leia direito) e às mulheres, chamar Deus assim provavelmente seria um escândalo “blasfêmico” maior do que se dizer filho de Deus, antecipando então a hora de sua Cruz. Jesus escandalizava a religião da época sim, mas escolhia bem que escândalos lhes eram possíveis e que ensinos seriam compreensíveis diante do contexto de sua encarnação. Chamar Deus de Pai, por exemplo, revelando mais de seu caráter pessoal, já era algo bem difícil de engolir! Imagina só, falar que além de pessoal ele traz até nós uma porção de cuidado, de gentileza, de sensibilidade? Virtudes sobretudo muito presentes na Maternidade e nas particularidades femininas.
Como disse o pastor Ed René Kivitz, “Jesus faz questão de apresentar Deus como alguém que não está preso no mundo das ideias, mas imerso no mundo das relações.” Não estamos falando de um Deus funcional, mas de um Deus essencialmente relacional.
Walter Brueggemann, teólogo do Antigo Testamento, na página 216 de sua Teologia, diz que tanto a função paternal de "gerar", quanto à materna de "dar à luz" são atribuídas ao Criador. Ainda em termos bíblicos é bom lembrar que várias das palavras hebraicas que se referem a Deus pertencem ao gênero feminino! Caso queira conhecê-las melhor, sugiro um Google, mas saiba já que ‘RUAH”, por exemplo (termo referente à Espírito de Deus), é um substantivo feminino. É, pois é.
Essa questão levanta outra: “Deus tem gênero?”
Não, Deus não tem gênero, afinal, ele é uma Pessoa mas não um Ser Humano. Aprendemos com o mesmo pastor citado acima, que “Deus”, na verdade, é um título que nós, cristãos, etiquetamos em Javé, reconhecendo sua autoridade sobre nós e submetendo-nos a ela.
É importante lembrar que Ele se revela dentro de termos presentes nas nossas antropologias e relações e em suas respectivas funções sociais. É por isso que vemos Ele sendo chamado de pai, de amigo, de mãe, etc.
Mas que fique claro que Deus em sua essência é um Ser Relacional, mas não É pai, mãe ou qualquer outra função social; Deus não é uma função (e nem cabe em apenas uma), ainda que ao longo da história elas tenham sido preenchidas de significância.
Alister McGrath, também citado pelo professor Franklin Ferreira em seu texto referente ao mesmo tema que você está lendo aqui, diz que apesar de “afirmar que a figura do pai na antiga sociedade israelita é um bom modelo para representar Deus, isso não equivale a dizer que Deus pertença ao gênero masculino ou que esteja limitado aos parâmetros culturais do antigo povo de Israel”.
De seu caráter, sabemos que Deus É O QUE É, O “Verdadeiro Eu Sou”, e assume essas funções ao mesmo tempo que as extrapola. Ele faz isso pra que o humano consiga percebê-lo um pouco melhor dentro dos limites do seu mundo e de sua linguagem. Aprendi com um dos meus professores, que segundo Calvino, a revelação é como se fosse um balbuciar de Deus pra sua criação ainda incapaz de compreendê-lo em plenitude. Deus se “antropomorfiza” (se revela em formas humanas) para que nossa espiritualidade seja mais palpável. Deus pode se mostrar como um pai assim como pode se mostrar como uma mãe, e ouso dizer que mãe negra, sobretudo num Brasil onde estas figuras são o mais vasto exemplo no que é segurar a barra de ser mãe.
Ao dizer tudo isso, quero te garantir que diferente de algumas vezes em que me posicionei na internet acerca de assuntos polêmicos, minha intenção dessa vez não é causar, mas sim, além de esclarecer algumas questões, tentar alcançar a algumas pessoas que por causa de experiências frustrantes de paternidade nunca puderam conhecer um Deus pessoal e cuidadoso.
Pessoas que por causa de traumas como violência, abuso, abandono e negligência paterna nunca puderam ter uma referência saudável do que é ser Pai, e por nunca terem chamado a Deus de pai, não desfrutaram da plenitude de seu amor. Sabemos que nossas primeiras “teorreferências” (referências de Deus) para nós são os nossos pais, e Deus também sabe disso. Ele se revela como pai e como mãe, mas sobretudo, Ele é amor, e ama, podendo então preencher quaisquer lacunas que seu pai ou sua mãe não se preocuparam ou não puderam preencher. Inclusive, assim como na Bíblia, “A Cabana” está mais preocupado em te dizer algo dessa categoria, do que te ensinar uma doutrina sobre Trindade ou seja lá o que for (você já parou pra pensar que Trindade é um termo cristão que nem aparece na Bíblia? Isso é outro assunto). Mesmo com suas limitações, digamos, teológicas, é um filme que fala de um Deus que chora o choro de seus filhos e filhas, e isso importa bastante. Deus está contigo.
“Eu vi que Deus se alegra em ser nosso pai, assim como ele também se alegra em ser nossa mãe; e que se alegra ainda em ser nosso amado, nosso verdadeiro esposo, tendo nossa alma como sua noiva amada… Por natureza, ele é o fundamento, a própria substância de todas as coisas. Ele é o verdadeiro pai e a verdadeira mãe do que as coisas são por natureza.”
Juliana de Norwich
Por último registro meu lamento; não o lamento que será resultado de te ouvir me chamando de “herege-liberal-ideólatra” após ignorar as intenções primeiras desse texto, mas o lamento que é fruto da quase-certeza de que se essas palavras tivessem sido escritas e publicadas por uma mina, por um preto, por uma mina preta, ou por qualquer outro representante de qualquer minoria, você que as leu/ouviu e viu ao menos alguma possibilidade de verdade, as resumiria como mais um MIMIMI das minorias da “geração mais chata da história”. Isso é lamentável.
E é por isso que encerro esse texto afirmando que: se tratando do combate à injustiça e da proclamação da igualdade humana, Deus é mais chat@ que mãe quando tá preocupada com o filho que ainda não chegou em casa!
Que o Deus que está acima de todas as polêmicas te abençoe, com o amor da mãe que despede o filho ao sair de casa, e com o amor do pai que o acorda pra ir pra escola.
Esse e outros textos, você encontra no Saleiro . com . br

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Escassez

A escassez tem a poderosa capacidade de nos fazer valorizar o que nos falta. Uma simples fatia de mussarela pode ser tratada com respeito e cuidado ou com mera insignificância, dependendo se as temos em falta ou com abundância.
Quando abastecer o carro é um ato contínuo, pisar no acelerador para ganhar uma posição no trânsito é apenas um comportamento normal de quem tem pressa, mas se momentos antes você passou no posto de gasolina e teve que gastar um tempo em cálculo sobre o quanto poderia despender para o combustível, ou se você antes de abastecer pesquisou o preço do combustível mais barato, apertar o acelerador passa a ser um ato consciente, com significado.
A escassez "ressignifica" cada coisa.
Nenhum povo ou indivíduo jamais pedirá "escassez" a Deus. Talvez por isso mesmo Deus é quem precisa tomar a iniciativa de nos dar experiências de escassez para que possamos reconhecer com mais propriedade o valor de cada coisa, de uma flor a uma fatia de mussarela, de um litro de combustível a uma viagem aérea.
Com os sentimentos acontece o mesmo. A quem é negado o amor, o abraço de 40 segundos, a profundidade de um olhar intenso, muito mais valor lhes dá. Já quem os recebe diariamente às vezes se dá ao luxo de nem apreciá-los mais.
Eu também não tenho coragem de pedir "escassez" a Deus, não quero sofrer. Então peço que Ele jamais me faça desdenhar de cada pequena coisa criada, de cada pequeno gesto de carinho ou afeto. Aprendi também que a compaixão pode ser uma alternativa para se aprender a dar valor a coisas e sentimentos. Mas terei de deixar a cargo dEle o método correto para eu de fato aprender a dar valor a todas as bondades que Ele diariamente nos propicia.