Por Clara Lenz César Bontempo
Um ano sem Elben - o texto da neta
Hoje eu chorei sua morte. No velório, chorei porque
celebramos sua vida e a vida de Cristo que vivia nele. Naquele dia, chorei sua
vida. Mas, hoje, eu choro a dor, a tristeza e a ausência. Hoje eu não celebro
sua vida; hoje eu lamento sua morte.
Minha mente me leva até o lugar mais bonito dessas memórias:
às risadas em meio à dor; aos hinos que cantávamos desafinado em seu quarto de
hospital; ao dia em que uma dezena de cachorros visitou os visitantes no
hospital; às visitas que nos davam descanso e comida; à delicadeza e ao amor
das minhas tias e da minha mãe; às fotos e versículos pregados nas paredes do
quarto; à constante música clássica que lhe fazia companhia quando não era mais
horário de visita; aos áudios enviados pela minha avó, que reproduzíamos várias
vezes ao pé do seu ouvido…
Mas meu coração me leva até o lugar mais feio dessas
memórias: ao peso das lágrimas contidas; às longas viagens de 5102, da UFMG até
o Madre Teresa, que me preparavam para mais um dia difícil; ao apartamento
emprestado que, embora torre de vigia, era também uma bomba-relógio – o lugar
em que todas as noites esperávamos uma ligação do hospital –; às lágrimas quase
inconsoláveis dos meus primos, pais, tias e tios. E, finalmente, ao seu rosto
estranho, irreconhecível, pálido, apático; aos aparatos médicos que o tornavam
menos humano, menos inteligente, menos divertido, menos vô.
Esse canto feio e frio das minhas memórias ficou fechado
desde que a ligação do hospital finalmente veio. Quando minha tia atendeu ao
telefone de madrugada, respirei fundo e pedi a Deus que me enchesse de coragem.
E ele o fez. Foi essa coragem que me levou até o hospital tantas vezes, que
segurou minhas lágrimas para que eu pudesse secar as da minha mãe. Foi essa
coragem que me levantou da cama naquela noite e me manteve de pé até cinco da
tarde do outro dia. Foi essa coragem que me fez encontrar motivo de piada na
escolha do caixão e ainda comprar briga com o pessoal da funerária às 3h da
manhã. Foi essa coragem que levou minhas outras tias, minha mãe, meu pai e meus
tios até a casa da minha avó às 2h da madrugada para que a notícia fosse
acompanhada de amor. Foi essa coragem – e uma certa inocência quase divertida –
que fez com que eu e minha tia, a quarta filha, embora as “mais lerdas da
família”, estivéssemos à frente de todas as burocracias da morte. Foi essa
coragem que nos fez viajar por 4 horas e meia no carro da funerária. E foi essa
coragem que nos recebeu em Viçosa: “Onde está, ó morte, a sua vitória?”, era
essa a mensagem que aguardava o corpo na igreja preparada para o velório.
Hoje, Deus me deu um pouco mais dessa coragem para que eu
pudesse me deixar ser levada de volta às memórias pesadas, até a fonte das
lágrimas de dor, tristeza e ausência. Eu preciso dessas lágrimas, nós
precisamos dessas lágrimas. Porque o consolo de Deus vem logo depois delas;
elas nos devolvem o senso de fraqueza para que sejamos mais fortes a partir do
consolo, da força e da alegria de Cristo.
Deus me levou até essa escuridão para que, logo depois, eu
pudesse levantar o rosto e olhar os lírios do campo. Olhem! Fechem os olhos
para o caos e observem os lírios do campo. Eles não trabalham nem costuram, e
ninguém jamais se vestiu tão bem quanto eles! Ergam a cabeça e olhem para os
ipês-amarelos. Eles não trabalham nem costuram, e ninguém jamais se vestiu tão
bem quanto eles! Prestem atenção no que Deus está fazendo agora e não se
preocupem quanto ao que pode ou não acontecer amanhã. Porque, por mais que se
preocupe, ninguém pode acrescentar um dia à sua vida. A vida é sopro, é brisa,
é vapor; a vida é interrompida bruscamente pela morte.
Mas a vida de que os lírios e os ipês falam não apenas
continua depois da morte. Ela pode começar antes, bem antes da morte. Não
escolham permanecer com a cabeça afundada no caos, na angústia, no medo, na
ansiedade, na falta de sentido que corrói seus dias e aponta para a morte.
Ergam a cabeça para olhar os ipês-amarelos. E, então, zombem da morte junto
comigo. De olhos fitos nos ipês, digamos juntos: “Onde está, ó morte, a sua
vitória?”!
Aposto que meu avô pensava nisso quando, um mês e meio antes
de morrer, ergueu a cabeça para ver melhor os ipês-amarelos da avenida Santa
Rita e... caiu – seu penúltimo tombo. Aposto que, quando ele pediu ao taxista
para pegar o caminho mais longo, que passava pela “avenida dos ipês amarelos”,
ele sabia que precisava se lembrar do cuidado de Deus. Sabia que tinha de
observar os lírios do campo para entender o que eles dizem a respeito de Deus e
da nossa humanidade caótica, mas perdoada; presa, mas liberta; triste, mas
cheia de esperança; morta, mas viva na ressurreição de Cristo.
Levantemos a cabeça, não porque sejamos dignos ou
autossuficientes, mas para que possamos ver melhor os ipês-amarelos e, assim,
lembrar-nos da maravilhosa esperança que há em Cristo – a esperança de uma vida
viva! Os ipês falam não de uma vida sem lágrimas, mas de uma vida em que as lágrimas
são sempre acompanhadas de consolo e as dúvidas mais cruéis são suavizadas pelo
sentido que permeia todas as coisas, uma vida em que a morte já morreu.
• Clara Lenz César Bontempo, 22 anos, é estudante de
Publicidade e Propaganda na UFMG e membro da Comunidade Evangélica do Castelo,
em Belo Horizonte, MG. É a neta do pastor Elben César sobre quem ele escreveu o
Diário de Emergência do Avô de Clara, publicado na edição 237 da revista
Ultimato.