domingo, 12 de abril de 2020

Que seu retorno seja breve!


Sou a morte.
Vim a existir no mesmo dia em que o pecado surgiu. A primeira vez que tive algo para fazer foi para prover uma cobertura de peles para um casal envergonhado com sua nudez. De lá para cá tenho tido muito trabalho. Há milhares de anos sou temida.
Há dois dias exerci minha mais significativa atividade, carregando para mim o homem *Jesus*. Recolhê-lo foi, pela primeira vez, doloroso. Mas ele estava incapacitado para a vida. *Tinha mais pecado nele do que jamais vi em qualquer outro*, então, não havia outra coisa a se fazer senão recolhê-lo.
É verdade que, apesar daquele pecado todo, havia algo de estranho no homem. Um “que” de dever cumprido ainda permanecia em seu rosto. Como se o fato de morrer fizesse parte de algum plano.
Hoje, porém, algo de totalmente diferente aconteceu. Toda estremecida, enfraquecida mesmo, reencontrei-me com este Jesus. Ele veio em minha direção já desvencilhado de todo aquele pecado. Eu havia me enganado, aquele pecado não lhe pertencia, ele o havia carregado voluntariamente.
Não havia sobrado mais nenhuma razão para que eu pudesse prendê-lo comigo. Sem aquele peso todo nas costas, já caminhando com as costas eretas, pude ver que ele era na verdade o Rei. Assim que ele chegou-se a mim, ordenou-me que o deixasse passar e, totalmente sem forças, obedeci. Eu estava tão fraca que, à sua passagem, fiquei de joelhos.
Quando ele passou por mim, pude vê-lo bem e ele era maravilhoso, cheio de poder, forte e ao mesmo tempo pacífico e amoroso. Quis segui-lo imediatamente, mas ele percebeu, voltou-se para mim e disse: você agora obedece a mim. Em breve lhe darei instruções específicas a respeito de alguns amigos e amigas que reservei para mim. Até lá, siga cumprindo seu dever.
Agora, vez por outra, ao recolher para mim certa pessoa, vejo em seu rosto algo que me lembra muito o Rei, e percebo que esta pessoa é um dos amigos dele.
A verdade é que desde que o Rei se foi nunca mais fui a mesma. Vivo esperando pelo dia em que o verei de novo e receberei dele aquelas instruções específicas acerca de seus amigos. Eu anseio este dia porque sinto que quando ele voltar terei cumprido minha função e poderei descansar.
Que seu retorno seja breve!

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Paixão de Cristo


Um homem manietado é jogado ao chão de terra batida. Cospem nele. Torturadores enfiam na sua testa uma coroa de espinhos que se cravam na pele, fazendo o sangue escorrer.
Batem nele com um chicote cujas pontas arrancam pele e carne. Mais sangue. E riem da sua impotência, da sua nudez, da sua vergonha. A perda de sangue produz uma sede terrível, mas ninguém lhe dá nada.
Cambaleando, é obrigado a carregar seu próprio instrumento de tortura às costas, um madeiro pesado - cuspido, espancado, xingado, envergonhado, sujo. A coroa de espinhos na sua cabeça o impede de enxergar direito. Olhar dói.
Vive a expectativa de uma morte demorada, e só a visão da dor excruciante que virá equivale a uma morte inteira. Esta dor se soma à maior de todas as dores: ele se encontra sozinho, abandonado. Ninguém reconhece sua divindade.
Tudo que ele fez é simplesmente ignorado – ele curou, ensinou, dignificou, alimentou e ressuscitou outros, mas ninguém parece se lembrar. Mas ele resiste. Uma chicotada, sede. Falta de ar. Depois um prego. Um ombro deslocado. Outro prego. Tudo devagar demais, lento demais.
E a dor. E a solidão. Mas ele resiste um pouco mais, até não poder mais. O sofrimento é tão grande que o próprio Sol se esconde para não ver. Num derradeiro esforço, esforço final, declara: está feito! E morre. Ninguém jamais morreu ou morrerá assim.
Mas, atenção: a história ainda não acabou. Depois de amanhã tudo será diferente, para nunca mais ser igual.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Aniversário do Gabriel


Há *27 anos* um bebê gordinho, meu bebê, era colocado num bercinho da maternidade. Embrulhado em mantas, o que se destacava eram os olhos – pretos, alertas e redondos como jabuticabas.
*E mamava*. Como gostava de um leitinho! Mas não era muito de dormir, o que hoje até parece uma profecia. Dormia por pouco tempo, aos solavancos, como se não quisesse perder nada do que havia da vida. Estava sempre interessado em algo. Porém, minutos antes de ser vencido pelo cansaço, pendia um pouco o lábio inferior e a cabeça caia um pouco para a direita, e ficava com o olhar distante, até que as pálpebras se fechavam. _Se fosse possível fotografar a paz, o resultado seria aquela imagem._
Passados 27 anos, agora é um *homem feito, barbado, sagaz, esperto, inteligente e culto*. E magro. E crente. E mais um monte de coisas boas que guardo no coração, mas não vou falar aqui, afinal, espero estar presente em muitos próximos aniversários e quero guardar um pouco de elogios e gratidão para os próximos. Mas uma coisa ainda preciso deixar bem claro: eu gosto tanto, tanto deste bebê gordinho! *Eu o amo mais do que a mim mesmo*. E o amarei sempre, enquanto Deus me permitir viver. Parabéns, Gabriel. Dá um orgulho santo ser seu pai!