quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

O Filho que eu quero ter

 É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer

Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer

Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr

E assim, chorando, acalentar o filho que eu quero ter

Dorme, meu pequenininho, dorme que a noite já vem

Teu pai está muito sozinho de tanto amor que ele tem

De repente, eu vejo se transformar num menino igual a mim

Que vem correndo me beijar quando eu chegar lá de onde eu vim

Um menino sempre a me perguntar um porquê que não tem fim

Um filho a quem só queira bem e a quem só diga que sim

Dorme, menino levado, dorme que a vida já vem

Teu pai está muito cansado de tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar pelo tanto que me deu

Sentir-lhe a barba me roçar no derradeiro beijo seu

E ao sentir, também, sua mão vedar meu olhar dos olhos seus

Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus

Dorme, meu pai, sem cuidado, dorme que ao entardecer

Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer ter

Fonte: Musixmatch

Compositores: Antonio Pecci Filho (Toquinho) / Marcus Vinicius Da Cruz De M. Moraes

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021


 A natureza se doa para nós a todo tempo. Quando Deus criou todas as coisas, olhou para sua obra e declarou: "é bom".

Durante muitos anos ela esteve conosco. Suportou ventos fortes. Sem nenhum custo nos ofereceu sombra e ar fresco. Fez isso sem nada exigir, e ainda nos presentou com o embelezamento da nossa fachada.

Por isso não foi sem tristeza que recebi o diagnóstico de sua doença. Minha ignorância cobrou seu preço - sem saber identificar o mal, deixei que ela fosse contaminada, e o jardineiro agora fez a declaração final: ela não resistirá.

Com pesar comunico que nossa irmãzinha terá de ser extraída. Os primeiros passos para esta providência já foram tomados, e mesmo que demore algumas semanas ou um pouco mais, não tem volta. Este ciclo acaba aqui. A máxima que ouvimos é inexorável: tudo muda, tudo sempre muda.

Obrigado, Deus, pela minha árvorezinha.

"Do solo o Senhor Deus fez brotar todo tipo de árvores agradáveis à vista..." (Gn 2.9)

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Texto de Pedro Bial sobre a morte de Marilia Mendonça

 “Hoje, a gente olha pro céu e clama, ‘pra que tanta pressa?' e reclama, cambaleante, sem o chão de tua voz. Marília, por que tanta pressa? Por que tão rápido?

Você ainda tinha tanta história pra viver e ouvir e depois em versos nos contar, tanto canto a doar. Por que tão rápido, pra que a pressa? Que versos você escreveria pra explicar isso? Como termina essa canção, interrompida pelo estrondo de silêncio? Que música é essa em descompasso e desafino, onde dó é só padecimento?

Como toda história, uma canção tem começo, meio e fim. E alguém já disse que toda canção começa buscando um meio de chegar ao fim. A canção de sua vida parece foi interrompida antes de encontrar o meio. É tão anti-natural, chegar ao fim, sem nem acabar de começar. Arrancaram a flor, ficou seu sonoro perfume a consolar um jardim entristecido.

Pois, agora, você que falava das coisas fugidias da vida, essas coisas de amores e dores, encontros e adeuses, você que libertava as palavras, deixando que voassem passarinhas pra nos consolar e pra que a gente as acolhesse no ninho de nossas solidões; agora, Marília, seus versos se aquietaram, imóveis, como mão de mãe, suave, sobre cabeça de menino, pousados sobre nossa memória.

Hoje, a gente lhe pergunta: 'Nunca mais, Marília?'.

E, com um sorriso mais manso do que triste, você nos responde que não, não é 'nunca mais'. Dedilha o violão, compondo uma canção pros anjos, e diz, 'É para sempre'”.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Morte

 "Nunca há terra suficiente para enterrar uma mãe..." Mia Couto

Morte. Este é um assunto que nunca tem um "jeito certo" de acontecer. Mas, em Cristo, ao menos podemos planejar o reencontro.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Quando morre um jovem - Por Ana Macarini

 Quando morre um jovem

Por Ana Macarini -10 de abril de 2017

Não há nessa vida nada mais difícil do que aprender a lidar com a ideia de sua inequívoca finitude. Nenhum de nós vai sair vivo dessa jornada, certo? No entanto, somos abençoados psicologicamente com o esquecimento diário dessa fatalidade. E, graças a isso, amanhecemos e anoitecemos ao sabor do tempo que passa… gastamos os dias, as horas, os mínimos instantes, em busca de algum prazer ou fórmula mágica que nos envolva na proteção de uma vida sem grandes desastres.

Traçamos metas; planejamos rotas de fuga; nos blindamos; construímos cercas de afeto; erigimos em nossa própria glória, esculturas de fumaça a projetar nossos sonhos e desejos, na esperança de que um dia eles se concretizem ao sabor das bênçãos de um anjo bem-humorado qualquer.

Vivemos tentando caber nas expectativas alheias e nas nossas próprias. Queremos ser incluídos, nos planos do outro, nos anseios de outro, na idealização do outro. Pagamos caro por uma imagem de normalidade e equilíbrio, parcelas altas de empenho e esforço. E quando não damos conta de tudo isso, sofremos… amargamos uma sensação incômoda e pontiaguda de insatisfação e descabimento.

Alguns de nós chegarão ao fim, só depois de ter sorvido cada um dos minutos passados nesse planeta, com a avidez de um náufrago esquecido em alguma ilha isolada por anos e anos, sem contato físico, sem sentir na boca o sabor de qualquer alimento diabolicamente processado, sem os ruídos físicos de outros humanos, sem o olhar modulador de outros da sua espécie, sem oportunidade de perguntar ou responder o que quer que seja, sem ouvir o eco da própria voz. Esses, bebem a vida a tragos longos e saborosos, embriagam-se de tudo: de amor, de ambição, de encontros, desencontros, de noites insones, de planos grandiosos.

Embriagados, chegam ao final da festa com a redentora satisfação daqueles que bebem sempre e tudo até a última gota.

Outros de nós, serão surpreendidos pelo descer das cortinas numa suave e confortável mansidão dos poetas que vivem sem pressa, que se enamoram por suas próprias criações; e, por isso mesmo, vivem numa bruma de enlevo eterno por suas próprias imagens e pelas imagens outras que venham ao encontro de suas mais profundas aspirações. Esses, não bebem qualquer coisa… escolhem os vinhos pela jovialidade ou sobriedade da uva, bebem chás a goles pequenos, tomam café puro, saboreiam com profundidade e reverência cada gota de água. Perdem-se em minúsculos bocados de vida, fingindo que o tempo é uma invenção idiota de algum deus perverso que não tinha nada melhor com que se ocupar.

A grande loucura, no entanto, só é dignamente contemplada e idolatrada quando a ordem aparente das nossas ingênuas aspirações é subvertida. A grande loucura que vem para nos desnortear para além do nosso limite se suportar as perdas, quando são os que viveram mais – sejam os embriagados de vida até a última gota, ou os apaixonados até o último saborear descomprometido -, que precisam carregar flores em memória daqueles que não tiveram a chance de escolher por um ou por outro.

Quando morre um jovem, todos aqueles que ficam sofrem um abalo imensurável em suas formas de contar o tempo. Quando uma vida é precocemente interrompida, a lógica é revirada do avesso até o ponto em que se transforma numa tortuosa falta de sentido e de propósito.

Ninguém está minimamente preparado para se despedir daqueles que ama na configuração de um epílogo definitivo e sem volta. Queremos desesperadamente trapacear a trama… colar mais algumas páginas em branco no final do livro para poder continuar a escrever. Queremos cortar dali o ponto final, esse intruso sem alma que vem nos dizer que é o fim.

O que podemos fazer, no entanto, já que não fomos contemplados com o poder de eternizar aqueles que amamos, é viver de forma a honrar a sua precoce despedida com uma vida que tenha de fato algum significado. Que o nosso luto pelos jovens a quem tivemos de dizer adeus seja uma transformação dentro de nossa alma naquelas nossas mazelas que nos fazem indignos de continuar aqui. Sejamos luz! Porque mais triste do que a despedida é não ser capaz de se tornar alguém melhor, exatamente por causa dela.


quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Sêneca e a morte

 Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte.

Sêneca

domingo, 25 de julho de 2021

Jó e a morte dos filhos

Deus restituiu tudo em dobro a Jó. Menos os filhos. Por que? Porque eles morreram, mas estavam vivos do outro lado. Eles estavam preservados com Deus.

"Quando a Natureza Quer Fazer um Homem", de Angela Morgan

 Há anos, recebi em aula do Dr. Modesto Marques Oliveira, o maior orador que tive o privilégio de ouvir, o poema "Quando a Natureza Quer Fazer um Homem", de Angela Morgan, que marcou minha vida:

Quando a natureza quer fazer um homem
E eletrizar o coração de um homem,
E adestrar à força quer, um homem,
Quando a natureza quer treinar um homem
Para cumprir uma genial missão;
E quando quer, de todo coração,
Criar um homem tão ousado e grande
Que a sua fama ao mundo inteiro mande

  • Observai o seu método e caminhos!
    Como coroa sempre com espinhos
    Aquele com quem ela simpatiza;
    Como o desbasta e como o martiriza,
    E a poderosos golpes o converte
    Num esboço de argila que diverte
    Somente a natureza que o compreende,
  • Enquanto o torturado coração
    Aos céus levanta a suplicante mão! –
    Quando o seu bem a natureza empreende,
    Como o abate, sem jamais quebrar,
    Como se serve do que vai sangrar!
    Como o derrete e não o deixa em paz,
    E com que artes ela sempre o induz
    A apresentar ao mundo a sua luz...
    A natureza sabe o que ela faz!

Quando a natureza quer pegar um homem,
E se deseja sacudir um homem,
E se pretende despertar um homem;
Quando a natureza quer fazer um homem
Que, no futuro, cumpra-lhe o decreto;
Quando ela tenta, com habilidade,
Quando deseja e quer, com ansiedade,
Fazê-lo vigoroso, são, completo,
Com que sagacidade ela o prepara!
Como o aguilhoa com a sua vara,
De que maneira o amola e como o enfeza
E o faz nascer em meio da pobreza...
Com desapontamentos sempre punge
O coração daquele que ela unge;
Com que sagacidade ela o esconde
E oculta, sem olhar ao menos onde,
Soluce embora o gênio, desprezado,
E seu orgulho guarde esse passado!
Manda-o combater mais arduamente,
Fá-lo tão solitário, que somente
As mais altas mensagens do Senhor
Consigam penetrar a sua dor!
É assim que a natureza lhe clareia
Da hierarquia a impenetrável teia.
E, embora ele não possa compreender,
Dá-lhe paixões ardentes de vencer!
Como impiedosamente ela o esporeia,
Com que terrível entusiasmo o fere
Quando acaso, acerbamente, ela o prefere!

Quando a natureza quer nomear um homem,
E quando ela quer dar fama para um homem,
E quando ela quer domar, acaso, um homem;
Quando ela quer dar brio para um homem
Executar missão quase celeste,
Quando ela tenta o seu supremo teste
Que há de imprimir a inconfundível marca

  • No que há de ser um rei, um monarca -,
    Quanto o dirige, e quanto que o refreia,
    De modo a que seu corpo mal contenha
    A inspiração ardente que o incendeia;
    E a sua ansiosa alma se mantenha
    Sempre anelante por um sonho esguio!
    Engana com ardis sua esperança,
    Lança-lhe em rosto novo desafio,
    No instante em que ele o alvo quase alcança!
    Faz uma selva – que limpar lhe custe;
    Faz um deserto – para que se assuste -,
    E para que ele o vença, se capaz...
    Assim a natureza um homem faz!

Então, para provar sua ira,
Uma montanha em seu caminho atira –
E põe amarga escolha à sua frente:
“Sobe, ou perece!”, diz-lhe, sorridente.
Meditai no mistério da intenção!
Da natureza o plano é tão clemente:
Se compreendêssemos a sua mente!
Os que a chamam cega, tolos são,
Pois com o pé sangrante e lacerado
É que o espírito sobe, descuidado,
Com entusiasmo e com vigor dobrado,
Esses caminhos todos, que ilumina
Com essa força ativa, que é divina;
E, do ardor maneja a espada de aço,
Para enfrentar o peso do fracasso;
E, mesmo na presença da derrota,
Inda esperança em seu olhar se nota!
Eis que é chegada a crise! Eis o grito
Que está a pedir um chefe ao Infinito!
Só quando o povo implora salvação,
É que ele vem governar a nação...
Então, a natureza diz-nos: “Tomem:
Eu vos entrego, finalmente, um homem!”

sábado, 10 de julho de 2021

Qual é o legado que você tem deixado pelos lugares em que passou?

Qual é o legado que você tem deixado pelos lugares em que passou?

É muito difícil responder a essa pergunta. Nem sei se é possível. O legado é um patrimônio sensível (algumas vezes invisível na dimensão histórica). Há sementes que plantamos na vida de outros que serão recolhidas apenas na eternidade.
Todavia, meu esforço intencional e cada vez mais consciente é pregar o evangelho com a VIDA e com a VOZ, sem perder a VEZ.

Pr. José Junior

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Feliz aniversário!

 Feliz aniversário! 

Parabéns pelo seu dia! 

Fé para viver!

Esperança para sobreviver!

E amor para conviver!

sábado, 5 de junho de 2021

Simon Phrase

(Simon, a partner of Garfunkel said this):

 "I was stuck there"

Interviewer: "What got you stuck?" "Well, everywhere I went, led me where I didn't wanna be. So I was stuck."

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Lenda Cherokee

 HISTÓRIAS MARAVILHOSAS 

O TRONCO CAÍDO 

Há uma bela lenda dos índios Cherokee sobre o "ritual de passagem" que diz isto: 

“O pai leva o filho para a floresta, coloca uma venda nos olhos e o deixa lá, sozinho.

O jovem deve permanecer sentado em um tronco a noite toda, sem remover a venda até que os raios do sol o avisem que é de manhã. Ele não pode e não deve pedir ajuda a ninguém.

Se ele sobreviver à noite, sem se desmoronar, será um homem.

Não pode contar a sua experiência aos amigos ou a ninguém, porque cada jovem tem que se tornar um homem sozinho.

O jovem está claramente aterrorizado... ele ouve muitos barulhos estranhos ao seu redor. Certamente existem feras ferozes ao seu redor. Talvez até homens perigosos que o machuquem.

O vento sopra forte a noite toda balançando as árvores, mas ele continua corajosamente, sem tirar a venda dos olhos. Afinal, é a única maneira de se tornar um homem!

Finalmente, depois de uma noite assustadora, o sol sai e ele tira a venda dos olhos.

E é nesse momento que ele percebe que o pai está sentado no tronco, ao lado dele. Esteve de guarda toda a noite protegendo o filho de qualquer perigo. O pai estava lá, embora o filho não soubesse.” 

Nós também nunca estamos sozinhos. Na noite mais assustadora, no escuro mais profundo, na solidão mais completa, mesmo quando não nos damos conta disso, o Pai Celestial  nunca nos abandona, e nos guarda... sentado no tronco ao nosso lado

sábado, 24 de abril de 2021

Pastor Edson Barbosa faz 76 anos

Pastor Edson Barbosa faz 76 anos

Por isso esse olher de certeza,
Por isso caminho sem pressa
Eu sempre renasço das cinzas
Guardei o sorriso pro fim!
Eu canto e carrego bandeiras,
Eu toco viola e tambores,
Eu vivo tranquilo e confio...
Eu quero é saber mais de Cristo!
Está confiança é que me põe de pé,
Palavra proclamada em meio a indizível dor proclamada.
Está consumado!
Me agarro a este brado,
E vejo o sorriso de Deus sobre mim!
Cordeiro imaculado,
Que se ofereceu com o preço de seu sangue;
Conquistou a minha paz.
Tudo isto me basta;
De pé, com o filho,
Recebo um beijo e a benção de Deus!
Stênio Marcius
Menestrel Cristão
A todos os meus amigos que estão lembrando de mim, neste dia em que eu celebro 76 anos de vida.
Este texto resume a minha caminhada.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Gizinha formada

 Houve solidão. Houve fracassos. Houve choro. Mas a solidão deu lugar às amizades. Os fracassos deram lugar ao sucesso. O choro deu lugar ao riso. Não, não é para fracos. Não é para fracos estudar na Unicamp e terminar em exatos 5 anos, sem dever matérias. Não é para fracos ser contratada pela mesma empresa para a qual trabalhou como estagiária. Esta é a Gizinha. Parece uma gata, mas é uma leoa.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Começo a Conhecer-me. Não Existo

 Começo a Conhecer-me. Não Existo

Álvaro de Campos |     


Começo a conhecer-me. Não existo.

Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,

Ou metade desse intervalo, porque também há vida…

Sou isso, enfim…

Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.

Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.

É um universo barato.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

LEGADO

A palavra LEGADO sempre me fascinou. Para mim ela encerra um propósito de vida. “Legado” deveria ser o resultado de uma vida. Mesmo que o seu sentido não seja exatamente este, penso sempre em “legado” como aquilo de bom que você deixa depois da sua morte. 
Quanto mais jovem menos se pensa nisso, porque, teoricamente, há tempo suficiente amanhã. Mas quando se chega à maturidade a coisa muda de figura. Já não há tempo. Fica difícil pensar em começar um novo projeto de vida se o atual não deu certo. Além disso, há diferentes áreas da vida, e ao falhar em apenas uma delas a impressão que dá é que se falhou em todas. Este é, certamente, o pensamento mais comum na minha geração. Ou se tem sucesso em tudo ou … danou-se - é um “looser”, um perdedor.
Enxergo a vida sob uma cosmovisão cristã. Sei que Deus é quem, no final, determina o propósito de uma vida. Mas também sei que Ele faz isto sem interferir na minha responsabilidade em tomar decisões, portanto, de volta ao drama. O que vou deixar como legado? Dinheiro não conta. Quer dizer, na verdade conta, mas eu não vou ter dinheiro suficiente para deixar que possa fazer a diferença no mundo. Bill Gates, Jeff Bezos, talvez. No meu caso, no máximo um seguro de vida.
Meus filhos”, seria outra coisa que muitos poderão dizer que é um bom legado. Mas não penso assim. Meus filhos foram criados por Deus. Ele os colocou na minha casa, proveu sustento, educação, companhia, possibilidades. Eles são sensacionais, mas eu acho que tive pouco a ver com isso. Deus fez todo o trabalho, e em seguida, a mãe. Talvez neste caso eu esteja exagerando um pouco e até tenha uma participação maior (o mau humor que eles demonstram vez por outra me lembra muito eu mesmo). Enfim, são excelentes filhos, mas nada que não se possa encontrar em outros lares abençoados por Deus.
Uma “grande ideia” pode ser um legado para muitos. Fleming descobriu a penicilina depois de observar um simples fungo;  esse é um verdadeiro legado. Já eu, no máximo, descobri um easter egg depois de assistir a um filme da Marvel. E nem fui o único. 
Um legislador pode deixar uma lei como legado - por exemplo, a “Lei Maria da Penha”. É um grande legado. Eu não faço leis, e se tento fazer, nem o meu cachorro segue. 
Por mais que eu tente, não encontro nenhuma habilidade minha que seja superior à de algum outro ser humano num raio de 100 km da minha casa. 
Às vezes penso em fazer algum cartaz e ir para a frente da Prefeitura ou do Fórum para protestar. Mas acho que ninguém me seguiria. Fazer um jejum em prol de uma causa não seria possível para mim, eu provavelmente ficaria tão irritado e chato que me fariam comer à força.
Penso nisso várias vezes por dia, submetendo cada atividade à crítica do “é um legado ou não?”. A resposta é invariavelmente um rotundo “não”. 
Não encontro em mim valor algum verdadeiramente superior, então dependo totalmente da bondade de Deus e dos méritos de Jesus.  
Por isso, toda noite, quando vou dormir, peço a Deus em oração que tenha misericórdia de mim e, por Jesus, não deixe que minha (auto)consciência se vá com a morte. Peço que, ao morrer, o milagre da ressurreição aconteça para mim, e que aconteça me levando à companhia de Jesus no que chamamos “céu”. E acabo dormindo até o dia seguinte, quando tudo recomeça. Nas poucas vezes em que surge uma ponta de dúvida sobre a possibilidade de Deus ter misericórdia de mim, tenho insônia. Fico ansioso e tenho vontade de levantar e escrever alguma coisa no Facebook, esperançoso de que o Zuckerberg realmente seja capaz de guardar tudo de todo mundo. Pelo menos alguma inteligência artificial tipo BIA versão 1.000.000 acabe se interessando por meu perfil no futuro.