quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Para educar um filho

Era uma sessão de terapia. “Não tenho tempo para educar a minha filha”, ela disse. Um psicanalista ortodoxo tomaria essa deixa como um caminho para a exploração do inconsciente da cliente. Ali estava um fio solto no tecido da ansiedade materna. Era só puxar o fio... Culpa. Ansiedade e culpa nos levariam para os sinistros subterrâneos da alma. Mas eu nunca fui ortodoxo. Sempre caminhei ao contrário na religião, na psicanálise, na universidade, na política, o que me tem valido não poucas complicações. O fato é que eu tenho um lado bruto, igual àquele do Analista de Bagé. Não puxei o fio solto dela. Ofereci-lhe meu próprio fio. “Eu nunca eduquei os meus filhos...”, eu disse. Ela fez uma pausa perplexa. Deve ter pensado: “Mas que psicanalista é esse que não educa os seus filhos?”. “Nunca educou os seus filhos?”, perguntou. Respondi: “Não, nunca. Eu só vivi com eles”. 
Essa memória antiga saiu da sua sombra quando uma jornalista, que preparava um artigo dirigido aos pais, me perguntou: “Que conselho o senhor daria aos pais?”. Respondi: “Nenhum. Não dou conselhos. Apenas diria: a infância é muito curta. Muito mais cedo do que se imagina os filhos crescerão e baterão as asas. Já não nos darão ouvidos. Já não serão nossos. No curto tempo da infância há apenas uma coisa a ser feita: viver com eles, viver gostoso com eles. Sem currículo. A vida é o currículo. Vivendo juntos, pais e filhos aprendem. A coisa mais importante a ser aprendida nada tem a ver com informações. Conheço pessoas bem informadas que são idiotas perfeitos. O que se ensina é o espaço manso e curioso que é criado pela relação lúdica entre pais e filhos.” Ensina-se um mundo! Vi, numa manhã de sábado, num parquinho, uma cena triste: um pai levara o filho para brincar. Com a mão esquerda empurrava o balanço. Com a mão direita segurava o jornal que estava lendo... Em poucos anos, sua mão esquerda estará vazia. Em compensação, ele terá duas mãos para segurar o jornal.
Rubem Alves

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Descontar o mau humor em quem mais se gosta é normal, mas que tal parar?

Heloísa Noronha
Colaboração com o UOL
28/08/2017 04h00

Perder a paciência com o filho por um motivo besta, gritar com a mulher ao chegar em casa depois de um dia extenuante no trabalho, maltratar aquela colega querida no trabalho numa crise de irritação. Exemplos típicos de que, no auge do mau humor, acaba sempre sobrando para aqueles de quem mais gostamos. Embora seja um comportamento comum e até normal, segundo especialistas, é bom aprender a mantê-lo sob controle. Afinal, mesmo quem nos ama de paixão pode se cansar de tanta encheção de saco e colocar um ponto final na amizade, pedir demissão ou terminar o romance. Para acabar de vez com os chiliques e ter relações mais sadias, entenda:

O que há por trás desse comportamento?

Confiança no sentimento alheio

Quando sabemos que alguém gosta de nós, temos segurança emocional para falar e fazer o que der na telha: afinal, o outro está lá, nos querendo bem. Essa sensação de segurança é que nos leva a afrouxar os filtros e a assumir o direito de achar que a pessoa tem a obrigação de nos entender e acolher nosso mau humor. Tudo em nome do afeto, da intimidade e da confiança absurda de que o amor é capaz de aguentar tudo.

Uma ideia equivocada do que é afeto

Quem age assim acredita que se o outro gosta de verdade, deve aguentar e aceitar seus defeitos e destemperos, incondicionalmente. Porém, há limite para tudo.

Um vínculo muito forte

Parece estranho, mas é normal e até comum deslocar a raiva para quem está mais próximo afetivamente e naqueles com quem nos sentimos verdadeiramente à vontade. Trata-se de um mecanismo de defesa do cérebro, pois quem gosta da gente não só tem a capacidade de nos perdoar, mas também de nos avisar que estamos exagerando em nossas atitudes e emoções.

Um pedido de socorro

Há um provérbio chinês que diz: "Me ame quando eu menos merecer, pois é quando eu mais preciso". Por mais inadequado e irracional que seja, a patada é uma espécie de alerta, um comunicado de que se está em situação de fragilidade e precisando de ajuda para lidar com as emoções.

Vontade de exercer poder

Mesmo no auge da pior crise de mau humor de todos os tempos, é comum segurar a onda perto de figuras de autoridade, mesmo quando gostamos muito delas. Isso mostra que, em muitos casos, tratamos mal quem consideramos, ainda que inconscientemente, permissivo ou submisso. Trata-se de um exercício compensatório do poder sobre o outro: pais e filhos, chefes e funcionários e até mesmo de um dos componentes do casal em relação ao par. Por trás disso, podem haver experiências de humilhação e opressão no passado ou no momento presente. Rebaixando alguém, a pessoa se sente aliviada - mesmo sem se dar conta disso.

Dificuldade em lidar com pressões

Descontar o mau humor em quem gosta pode ser uma válvula de escape para situações estressantes no trabalho, na esfera familiar ou até mesmo envolvendo uma baixa autoestima.

Medo de abandono

O ato de tratar mal pode ser fruto de uma história de abandono em uma fase muito primária da vida do indivíduo, ou um abandono por alguém muito significativo em alguma época da sua vida. Assim, a pessoa usa as patadas como uma forma de testar continuamente o afeto do outro, como uma prova de amor, uma garantia: quem gosta mesmo de mim, vai ficar comigo, independentemente do que eu fizer.

Raiva contida

Algumas pessoas são mais reativas e tendem a responder emocionalmente “na raiva” diante de frustrações ou contrariedades. Podem ter também um temperamento mais explosivo ou violento, mas, muitas vezes, precisam guardar para si seus sentimentos e emoções por causa do contexto: quando estão no trabalho ou em público, por exemplo. Daí, quando estão diante de pessoas mais íntimas, relaxam e explodem.

Como romper esse padrão?

Reconhecendo-o

O primeiro passo é assumir que esse comportamento negativo existe e que ele atrapalha suas relações. A culpa por magoar alguém é um sinal importante dessa tomada de consciência.

Praticando a empatia

Deve-se compreender as consequências das atitudes nos outros e o impacto que elas causam. E colocar-se no lugar da pessoa, imaginando-se alvo de impropérios e grosserias, é uma boa forma de tentar ver as coisas sob outra ótica.

Exercitando o autocontrole

A atenção deve ser trabalhada para que, independentemente dos eventos ocorridos, se note realmente o outro antes de virar o Jiraya e ofender. Dicas: evite entrar em conversas polêmicas, respire fundo e procure pensar antes de agir ou falar e, num dia em que acordou de "ovo virado", tenha a gentileza de avisar quem está ao redor.

Pedindo desculpas e se comprometendo a não repetir o erro

Exerça a humildade e a dignidade de reconhecer o erro e se retratar, empenhando-se, de fato, a buscar formas mais equilibradas e saudáveis de lidar com o estresse e as emoções.

Analisando o próprio humor

É possível aprender a perceber sinais sutis de que a irritação está chegando e, assim, tomar consciência dos riscos e agir para evitar fazer ou dizer coisas que se arrependerá depois.

Invista em atividades relaxantes

Dessa forma, você vai manter o nível de estresse sob controle e ainda aumentar o nível de endorfinas, substâncias responsáveis pelo bem-estar, em seu organismo. Sugestões: ioga, caminhada, tai-chi, dança, artes marciais, pintura, tricô etc.

Quem está na função de saco de pancada, o que deve fazer?

Também rever seus conceitos sobre afeto

É preciso desmistificar a ilusão de que amar é aguentar tudo do outro. Só uma relação doentia sobrevive a uma rotina entre tapas e beijos, em que o amor e o rancor andam de mãos dadas.

Não dar corda para as patadas

É preciso sempre falar sobre como se sente ao ser alvo de hostilidade e mau humor. Posicione-se, pois a omissão só abre espaço para novos ataques acontecerem.

Estabelecer limites

Por maior que seja o nível de compreensão em relação ao momento difícil enfrentado pela pessoa, isso não é motivo para permitir que ela extrapole ao descontar a raiva.

Não adotar o mesmo comportamento

Quem recebe uma ofensa e se cala, deixa a porta aberta para outras agressões verbais. Isso acaba criando um acordo velado: na próxima vez, a vítima vai se ver no direito de também apelar para a grosseria, ou seja, "me aguenta que eu te aguento". Em vez de dar o troco na mesma moeda, é preciso quebrar o ciclo vicioso, pois pessoas que sofreram abusos podem se tornar abusivas, e assim sucessivamente.
Fontes: Carla Chemure Cechelero Slongo, psicóloga representante setorial do Litoral do CRP-PR (Conselho Regional de Psicologia do Paraná); Cynthia Wood, psicóloga clínica de São Paulo (SP); Lika Queiroz, psicóloga especializada em Gestalt-Terapia e coautora do livro "Questão do humano na contemporaneidade (Summus Editorial); Maura de Albanesi, psicoterapeuta, de São Paulo (SP), e Rosalina Moura, psicóloga e fundadora da Rumo Saudável, empresa especializada em soluções para o gerenciamento do estresse, de São Paulo (SP).

Frases de Mia Couto no livro ANTES DE NASCER O MUNDO

Ninguém é de uma raça. As raças […] são fardas que vestimos. (p. 13)
Não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez. (p. 13)
O sonho é uma conversa com os mortos, uma viagem ao país das almas. (p. 17)
Quem viveu pregado a um só chão não sabe sonhar com outros lugares. (p. 24)
Nunca vi estrada que não fosse triste. (p. 35)
Esperas. É isso que a estrada traz. E são as esperas que fazem envelhecer. (p. 35)
Todo nascimento é uma exclusão, uma mutilação. […] Diz-se “parto”. Pois seria mais acertado dizer “partida”. (p. 40)
A escrita era uma ponte entre tempos passados e futuros. (p. 42)
Rezar é chamar visitas. (p. 44)
Chorar ou rezar é a mesma coisa. (p. 45)
Onde se dorme junto é no cemitério. (p. 46)
Não é segurando nas asas que se ajuda um pássaro a voar. O pássaro voa simplesmente porque o deixam ser pássaro. (p. 52)
Que história pode ser criada sem lágrima, sem canto, sem livro e sem reza? (p. 54)
Os olhos de quem se ama nunca se vêem. (p. 55)
A cegueira é o destino de quem se deixa tomar de assalto pela paixão: deixamos de ver quem amamos. Em vez disso, o apaixonado fita o abismo de si mesmo. (p. 56)
Os mortos não morrem quando deixam de viver, mas quando os votamos ao esquecimento. (p. 59)
O medo faz dilatar as distâncias. (p. 64)
Não viver é o que mais cansa. (p. 65)
Quem sai do seu lugar, nunca a si mesmo regressa. (p. 74)
A raiva é apenas um modo diverso de chorar. (p. 76)
Os soldados estão sempre feridos. A guerra fere mesmo os que nunca saíram em batalha. (p. 93)
Perante o tiro, certo ou falhado, toda a gente sempre morre. (p. 103)
Não chegamos realmente a viver durante a maior parte da nossa vida. Desperdiçamo-nos numa espraiada letargia a que, para nosso próprio engano e consolo, chamamos existência. No resto, vamos vagalumeando, acesos apenas por breves intermitências. (p. 115)
Nunca há terra suficiente para enterrar uma mãe. (p. 121)
O poeta se engrandece perante a ausência, como se a ausência fosse o seu altar, e ele ficasse maior que a palavra. (p. 132)
Os segredos são fascinantes, porque foram feitos para serem revelados. (p. 136)
Do amor me interessa apenas o não-saber, deixar o corpo fora da mente, em descomando absoluto. (p. 140)
A poesia é uma doença mortal. (p. 142)
Quem quer a eternidade olha o céu, quem quer o momento olha a nuvem. (p. 147)
É isso que faz um lugar: o chegar e o partir. (p. 156)
O silêncio é uma travessia. (p. 180)
O Tempo é um veneno […] Mais eu lembro, menos fico vivo. (p. 212)
Os vivos não são simples enterradores de ossos: eles são, antes de mais, pastores de defuntos. (p. 212)
Este mundo, para ser amado, precisa de ódio. (p. 224)
Uma despedida […] é um pequeno modo de morrer. (p. 241)
Deixo de ser cego apenas quando escrevo. (p. 275)

Frase de Mia Couto: Nunca há terra suficiente para enterrar uma mãe.

"Nunca há terra suficiente para enterrar uma mãe."

Mia Couto, em "Antes de Nascer o Mundo"

Pedido de Socorro

Um pedido de socorro Há um provérbio chinês que diz: "Me ame quando eu menos merecer, pois é quando eu mais preciso". Por mais inadequado e irracional que seja, a patada é uma espécie de alerta, um comunicado de que se está em si... - Veja mais em https://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2017/08/28/descontar-o-mau-humor-em-quem-mais-gosta-e-normal-mas-que-tal-parar.htm?cmpid=copiaecola

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Sobre o ouvir

O ato de ouvir exige humildade de quem ouve. E a humildade está nisso: saber, não com a cabeça mas com o coração, que é possível que o outro veja mundos que nós não vemos. Mas isso, admitir que o outro vê coisas que nós não vemos, implica reconhecer que somos meio cegos... Vemos pouco, vemos torto, vemos errado. Bernardo Soares diz que aquilo que vemos é aquilo que somos. Assim, para sair do círculo fechado de nós mesmos, em que só vemos nosso próprio rosto refletido nas coisas, é preciso que nos coloquemos fora de nós mesmos. Não somos o umbigo do mundo. E isso é muito difícil: reconhecer que não somos o umbigo do mundo! Para se ouvir de verdade, isso é, para nos colocarmos dentro do mundo do outro, é preciso colocar entre parêntesis, ainda que provisoriamente, as nossas opiniões. Minhas opiniões! É claro que eu acredito que as minhas opiniões são a expressão da verdade. Se eu não acreditasse na verdade daquilo que penso, trocaria meus pensamentos por outros. E se falo é para fazer com que aquele que me ouve acredite em mim, troque os seus pensamentos pelos meus. É norma de boa educação ficar em silêncio enquanto o outro fala. Mas esse silêncio não é verdadeiro. É apenas um tempo de espera: estou esperando que ele termine de falar para que eu, então, diga a verdade. A prova disto está no seguinte: se levo a sério o que o outro está dizendo, que é diferente do que penso, depois de terminada a sua fala eu ficaria em silêncio, para ruminar aquilo que ele disse, que me é estranho. Mas isso jamais acontece. A resposta vem sempre rápida e imediata. A resposta rápida quer dizer: “Não preciso ouvi-lo. Basta que eu me ouça a mim mesmo. Não vou perder tempo ruminando o que você disse. Aquilo que você disse não é o que eu diria, portanto está errado...”.

Resumo do Singularity University Global Summit 2017 em São Francisco

Resumo do Singularity University Global Summit 2017 em São Francisco. 
O evento estuda o futuro dos negócios, da tecnologia e da humanidade.

Resumo do primeito dia em 10 itens:

1. São 1.600 participantes do mundo inteiro. 70% são estrangeiros. A maior delegação é do Brasil. 
2. Em 2030, mil dólares vão comprar poder computacional equivalente ao cérebro humano. Em 2050, mil dólares vão comprar poder computacional equivalente a todos os cérebros humanos juntos.
3. Em 2010 1.8 Bilhões de pessoas estavam conectadas à internet. Em 2017 são 3 Bi. Entre 2022 e 2025 será o mundo inteiro. Com mais conexões, mais oportunidades, mais gênios.
4. As próximas duas décadas serão diferentes de qualquer coisa que vivemos nos últimos cem anos.
5. Podemos prever empregos que serão absorvidos pela tecnologia. Mas não podemos prever quais empregos vão surgir a partir da tecnologia. A dificuldade é a velocidade com que isso está acontecendo.
6. 130 milhões de pessoas no mundo estão satisfeitas com o seu trabalho. Parece muito, mas em termos mundiais é nada.
7. Veículos elétricos tem 90% menos moving parts do que veículos tradicionais. 
8. Na China todos os taxis serão elétricos até 2020. 
9. O custo de um carro elétrico vai reduzir drasticamente nos próximos 5 anos. Razões: demanda e abundância.
10. Esqueçam os wearables. Estamos entrando na era dos insideables.

Resumo do segundo dia em 10 itens:

1. Human life is a software engineering problem.
2. As ferramentas do nosso tempo: big data e machine learning.
3. 3 bilhões de pessoas vivem com menos de 2,5 dólares. 80% da humanidade vive com menos de 10 dólares por dia.
4. 90% das enfermeiras que usam Watson da IBM seguem as recomendações do Watson.
5. Automação e inteligência artificial criarão empregos. Posso tornar qualquer coisa inteligente usando inteligência artificial e ganhar dinheiro com isso. Estados Unidos é o país mais automatizado do mundo e não perdeu emprego com isso.
6. No futuro teremos muito mais máquinas do que humanos.
7. Ensinamos da mesma forma há cem anos. Sistema educacional é resistente a uma mudança disruptiva. Que tal just in time education?
8. Nossas premissas sobre o mundo podem limitar nosso pensamento. E isso faz toda a diferença. 
9. Organizações não mudam até que todas as pessoas mudem.
10. Líderes exponenciais não tentam mudar o mundo. Eles tentam mudar a si mesmo.


Singularity 2017 - Resumo do terceiro e último dia. 

Desta vez não foi possível resumir em 10, mas em 20 itens:

1. Em 2020, 85% das interações com clientes serão realizadas através de máquinas. E essa será uma das formas de se diferenciar dos concorrentes.
2. 75% dos millennials consideram a comunicação através de mensagens de texto uma opção de relacionamento com o cliente e têm duas vezes mais chance de se manter fiéis às empresas que oferecerem essa forma de comunicação com eles.
3. 30% dos millennials não possuem o ícone do telefone na tela principal dos seus smartphones.
4. Empresas hoje já produzem carne de frango e gado sem matar nenhum animal. A partir da célula animal.
5. 20% de todas as buscas em dispositivos móveis já são feitas por voz.
6. Veículos e objetos autônomos vão mudar as cidades profundamente.
7. Criatividade, empatia e coragem são as habilidades do futuro.
8. As instituições de ensino que existem hoje, em sua maioria, foram criadas com pressupostos de 60 anos atrás. O ensino médio é a chave para mudar todo o sistema educacional.
9. O principal problema da educação é cultural. Há cem anos é igual. Muitos falam de customizar ensino para crianças, mas a chave é customizar ensino também para os professores. Um a um. Até a mudança ocorrer.
10. O futuro da educação é learning by doing.
11. Vamos mudar a lógica de "vender carros" para "vender serviços de mobilidade".
12. O mundo hoje está fazendo a transição da era industrial para a digital da mesma forma que anos atrás fazia da era agrícola para a industrial. Mas MUITO mais rápido.
13. Existem 2.6 bilhões de smartphones no mundo. E 9 vezes mais dados somente nos últimos DOIS anos. 
14. As pessoas vão aprender dentro de uma lógica de "nano-learning", e não de um longo investimento em educação para usar somente um percentual mínimo daquilo que se aprende. Todos terão um portfólio de trabalho, que será nano-desenvolvido.
15. Os maiores problemas do mundo são também as maiores oportunidades de negócio. 
16. Robôs serão considerados uma opção de força de trabalho. Assim como hoje consideramos funcionários, terceiros, freelances e a crowd. Simples assim.
17. Ser exponencial é atualizar e se atualizar de tudo constantemente.
18. O Vale do Silício tem uma palavra para descrever fracasso. Se chama experiência. 
19. Hoje existe abundância de capital, conhecimento, habilidades e tecnologia. Não há desculpa para não fazer as coisas. Não há limites. A única limitação é a nossa convicção e comprometimento de simplesmente ir e fazer.
20. Em poucos anos todos trabalharão para aprender, ao invés de aprender para trabalhar.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Texto complexo extraído de "Quase Salvo" do Rev. Hernandes

Certa feita, numa pequena e bucólica vila, um homem exercia seu trabalho diário, sem nenhuma novidade. Sua única responsabilidade era cuidar de um pontilhão onde o trem passava toda tarde repleto de passageiros. Certo dia, aquele homem, descuidadamente deixou seu posto de trabalho e foi jogar baralho com os seus amigos. De repente, esboçou-se na fímbria do horizonte o prenúncio irreversível de uma tempestade convulsiva e borrascosa . As nuvens plúmbeas enegreceram densas, cobrindo o céu azul. Os relâmpagos serpenteantes riscavam os céus. Os trovões ribombavam nas alturas, os ventos desaçaimados sopravam com violência. Não tardou para que descesse uma chuva torrencial. As enxurradas violentas rolaram montanha abaixo, precipitando-se com fúria no vale, derrubando casas, pontes, arrastando tudo pela força das águas. Minutos depois, aquele pontilhão, sovado pelos açoites implacáveis das águas, foi arrebentado e arrastado, deixando no local um grande abismo.

O homem responsável pela ponte, envolvido na jogatina, não se apercebeu do perigo e continuou no jogo com seus comparsas.


De súbito, aconteceu uma tragédia, uma catástrofe horrenda, sem que houvesse qualquer aviso. O trem aponta na curva, célere, lotado. Segundos depois, um barulho, um estrondo, uma tragédia, gritos, gemidos, lágrimas, sangue, morte. Centenas de pessoas morreram esmagadas, uma multidão ferida. A vila ficou tomada por um grito de dor, por soluços inconsoláveis dos infelizes moribundos. Foi então, que o descuidado jogador saiu para a rua e ao ver a tragédia, sabendo que ele era o maior responsável, saiu gritando como louco: “Ah! se eu tivesse ouvido! Ah! se eu tivesse ouvido! Ah! se eu tivesse ouvido! Agora é tarde. Tarde demais.”

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Frase de Mia Couto

Os homens são assim, fingidos de força, porque têm medo.
Quem voa depois da morte? É a folha da árvore.
Se temos voz é para vazar sentimento. Contudo, sentimento demasiado nos rouba a voz.
Não vê os rios que nunca enchem o mar? A vida de cada um também é assim: está sempre toda por viver.

O Último Voo do Flamingo

Quem não tem nada não chama inveja de ninguém. Melhor sentinela é não ter portas.
Não é o destino que conta mas o caminho.
O cansaço é uma velhice súbita.A dor é uma janela por onde a morte nos espreita.Faça como o galo que mostra as penas do rabo. Quanto mais belas as penas, menos você cai na panela.




Terra Sonâmbula


Quem se lembra tanto de tudo é porque não espera mais nada da vida.

Nascemos e choramos. A nossa língua materna não é a palavra. O choro é o nosso primeiro idioma.

Só há um modo de enfrentar as más lembranças: é mudar radicalmente de viver, decepar raízes e fazer as pontes desabarem.

A melhor maneira de mentir é ficar calado.

O outro pé da Sereia

A palavra "ler" vem do latim "legere" e queria dizer "escolher". Era isso que faziam os antigos romanos quando, por exemplo, selecionavam entre os grãos de cereais. A raiz etimológica está bem patente no nosso termo “eleger”. Ora o drama é que hoje estamos deixando de escolher. Estamos deixando de ler no sentido da raiz da palavra. Cada vez mais somos escolhidos, cada vez mais somos objecto de apelos que nos convertem em números, em estatísticas de mercado.
É fácil sermos tolerantes com os que são diferentes. É um pouco mais difícil sermos solidários com os outros. Difícil é sermos outros, difícil é sermos os outros.
A globalização começou com o primeiro homem.
E se Obama Fosse Africano?

Há coisas que são resolvidas por governos. Há coisas que nenhum governo é capaz de resolver. Seremos nós, com o tempo que nos for concedido, que resolveremos. Por via da nossa cidadania em construção.
A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos.
O discurso de grande parte dos políticos é feito de lugares-comuns, incapazes de entenderem a complexidade da condição dos nossos países e dos nossos povos. A demagogia fácil continua a substituir a procura de soluções.
Pensatempos


O que faz a lágrima? A lágrima nos universa, nela regressamos ao primeiro início.

O Último Voo do Flamingo


É que em todo o lado, mesmo no invisível, há uma porta. Longe ou perto, não somos donos, mas simples convidados. A vida, por respeito, requer licença.
O segredo é demorar o sofrimento, cozinhá-lo em lentíssimo fogo, até que ele se espalhe, diluto, no infinito do tempo.

No coração envelhecido de uma mãe, os filhos regressam sempre tarde.

O importante não é a casa onde moramos, mas onde, em nós, a casa mora.

Com o corpo, falamos tristezas que as palavras desconhecem.

A dor pede pudor. O sofrimento é uma nudez - não se mostra aos públicos.

Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

Ficar devidamente calado requer anos de prática.

Jerusalém


Sim, que a verdadeira bondade não se mede em tempo de fartura mas quando a fome dança no corpo dos homens.

Vozes Anoitecidas


Desde que te amo, o mundo inteiro te pertence. Por isso, nunca cheguei a dar-te nada. Apenas devolvi.
Um exército de ovelhas liderado por um leão é capaz de derrotar um exército de leões liderado por uma ovelha.

A Confissão da Leoa

O cansaço é um modo do corpo ensinar a cabeça.

Contos do Nascer da Terra
Ser menino é estar cheio de céu por cima.

Pensageiro Frequente

Nasci sem saber chorar

Nasci sem saber chorar. Logo ao romper a madre soube que seria assim para sempre - como nasci atrasado, não tinha forças para chorar, então a palmadinha não surtiu efeito. No primeiro momento em que o choro veio forte e os olhos iam marejando, ouvi meu pai dizer "Vai chorar agora? Homem não chora!". Engoli (em seco), e o que era para ser um primeiro derramar de dor virou bola no estômago. Ela ainda está lá, minha companheira.

O tempo foi passando. Injeções, provocações, humilhações, emoções. Nada foi capaz de me capacitar ao choro. Certa vez, olhos ardendo, fui a um oftalmologista. Diagnóstico: "Síndrome dos Olhos Secos". Lágrima, só mesmo a artificial.

Hoje, já um homem além da meia-idade, continuo sem conseguir chorar. A dor vem e vai, o desespero vem e vai, a angústia vem e vai, a lágrima não vem. Sei que a lágrima é salgada por conta dos que já usaram meu ombro para chorar. Ou por causa da lágrima artificial. Mas a minha própria lágrima permanece insípida.

"Ora, todo ser humano chora", você vai dizer. Eu concordo. Se sou ser humano, então eu choro também. Mas a diferença está na manifestação, não no ato. No meu caso, o choro se torna naquela mesma bola no estômago. Quanto maior o "choro", maior a bola no estômago. Maior a dor de dentro. Maior o tempo de dor. Mais dificuldade para engolir o almoço. Depois de um tempo equivalente a um tempo de choro, a dor de dentro passa. 

Quem convive comigo interpreta como "resistência", "paciência", "esperança", mas é mais simples que isso - é só incapacidade de chorar, mesmo. Talvez como contrapartida, Deus me concedeu outra habilidade no lugar desta: a de sorrir sempre (mas apenas com os lábios, nunca com os olhos). Mas este é tema para outro texto.

sábado, 5 de agosto de 2017

Como é ser autista

https://www.youtube.com/watch?v=m0J-BwkQK4A