quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Nasci sem saber chorar

Nasci sem saber chorar. Logo ao romper a madre soube que seria assim para sempre - como nasci atrasado, não tinha forças para chorar, então a palmadinha não surtiu efeito. No primeiro momento em que o choro veio forte e os olhos iam marejando, ouvi meu pai dizer "Vai chorar agora? Homem não chora!". Engoli (em seco), e o que era para ser um primeiro derramar de dor virou bola no estômago. Ela ainda está lá, minha companheira.

O tempo foi passando. Injeções, provocações, humilhações, emoções. Nada foi capaz de me capacitar ao choro. Certa vez, olhos ardendo, fui a um oftalmologista. Diagnóstico: "Síndrome dos Olhos Secos". Lágrima, só mesmo a artificial.

Hoje, já um homem além da meia-idade, continuo sem conseguir chorar. A dor vem e vai, o desespero vem e vai, a angústia vem e vai, a lágrima não vem. Sei que a lágrima é salgada por conta dos que já usaram meu ombro para chorar. Ou por causa da lágrima artificial. Mas a minha própria lágrima permanece insípida.

"Ora, todo ser humano chora", você vai dizer. Eu concordo. Se sou ser humano, então eu choro também. Mas a diferença está na manifestação, não no ato. No meu caso, o choro se torna naquela mesma bola no estômago. Quanto maior o "choro", maior a bola no estômago. Maior a dor de dentro. Maior o tempo de dor. Mais dificuldade para engolir o almoço. Depois de um tempo equivalente a um tempo de choro, a dor de dentro passa. 

Quem convive comigo interpreta como "resistência", "paciência", "esperança", mas é mais simples que isso - é só incapacidade de chorar, mesmo. Talvez como contrapartida, Deus me concedeu outra habilidade no lugar desta: a de sorrir sempre (mas apenas com os lábios, nunca com os olhos). Mas este é tema para outro texto.

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